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Sex 16 Jun 2017

Otavio Novo: Incêndios em Manila e Londres. O que devemos (re)aprender com essas graves situações?


Otavio Novo é especialista em Gestão de Crises (foto: arquivo pessoal)

Em pouco mais de dez dias o mundo acompanhou dois casos muito graves de incêndios em edificações, com dezenas de vítimas fatais. No último dia 2, um grande resort em Manila nas Filipinas foi alvo de um ataque armado, com a finalidade, em princípio, de roubo de fichas do cassino no hotel. O autor do ataque, além de fazer disparos com um fuzil M4, levava um galão de gasolina, ateando fogo nas dependências do hotel, causando assim a morte de 38 pessoas, incluindo a si próprio. E na última quarta-feira, dia 14, um prédio residencial em Londres, foi amplamente atingido por um incêndio de grandes proporções. Até o momento foram registradas 30 mortes, cerca de 36 desaparecimentos e aproximadamente 25 pessoas feridas, muitas delas em estado grave.

Os dois casos são muito relevantes para o mundo devido a sua gravidade e impacto, especialmente, por cerca de 70 vidas perdidas nas 2 situações. E para o setor de turismo também se tratam de ocorrências emblemáticas, pois atingem diretamente duas cidades de forte atividade turística, e locais que apresentam ligação com esse setor.

Claramente o caso de Manila é relacionado ao turismo por se tratar de um hotel e de um cassino, contudo a tragédia de Londres, apesar de ter ocorrido num prédio residencial, também está ligado com o setor por algumas razões expostas a seguir.

Hoje em dia as acomodações de turistas podem ser feitas em prédios residenciais por intermédio das empresas e aplicativos de aluguel de quartos e residências. Além disso, muitos hotéis em operação em todo mundo, e também no Brasil, são adaptados a partir de construções e projetos aprovados para pédios residenciais, ou seja, as chamadas Conversões.

Dessa forma, nos dois casos acima, via de regra, as estruturas físicas apresentam limitações em comparação aos prédios originalmente preparados para fins comerciais e de hospedagem, como por exemplo, a existência de apenas uma escada de emergência, rotas de fuga sem sinalização e mais estreitas que o especificado pelas leis, uso de materiais de construção fora de especificações de segurança e, muitas vezes, inflamáveis,  falta de itens de segurança como: sprinklers, portas corta fogo, detectores de fumaça, compartimentação contra fogo, além de outros pontos, que normalmente são itens básicos em hotéis e outros meios de hospedagem.

E, além dessas diferenças físicas entre imóveis de origem residencial e aqueles preparados para fins comerciais, em ambos, sempre teremos a possibilidade de deficiência no quesito humano, ou seja, na informação e preparação das pessoas para reagir diante de uma situação extrema como nos exemplos citados.

No resort, segundo informações da imprensa local, existiam nove saídas de emergência no local da concentração das fatalidades (apenas o agressor morreu em outra localidade), ou seja, em princípio existiam muitas opções para a evacuação das pessoas que morreram devido a inalação da fumaça. No prédio em Londres havia apenas uma alternativa de rota de fuga. No primeiro caso, o fato do homem que realizava o ataque estar armado e atirando, fez com que as pessoas, com medo, se mantivessem num local inadequado, sofrendo os efeitos fatais da fumaça, e no segundo caso, pelas primeiras informações, muitas pessoas foram pegas de surpresa devido a rapidez de combustão e propagação de fogo e fumaça do revestimento inflamável e falta de isolamento, não tendo alternativas para a fuga em tempo hábil.

Aprendizado

Num primeiro momento, nos parece que nas duas situações, alguns fatores potencializaram a dificuldade em minimizar os impactos, sendo eles:

1 – Resort Manila -  Demora na detecção do agressor, falta de informação por parte da segurança/gestão sobre a situação, impossibilitando ação policial para a evacuação das pessoas;
2 –  Prédio residencial Londres - falhas na construção, como uso de materiais inflamáveis, rota de fuga única, e falta de isolamento ao fogo, além de processo falho de alarme e de evacuação.

Orientações

É essencial que se realize e se conheça, diante de cada responsabilidade, os respectivos planos de segurança e de emergência das edificações das quais somos responsáveis ou usuários. Além de medidas preventivas, como construções em conformidade com as normas vigentes, treinamentos, planos de segurança e de manutenção preventivas, o processo de evacuação é ponto fundamental que pode significar a preservação da vida de dezenas de pessoas desde que implantado e, sistematicamente, treinado e testado.

Hoje vemos que muitos hotéis realizam os treinamentos de brigada de incêndio apenas para cumprir as exigências, e não o fazem para realmente preparar as equipes a reagir corretamente em caso de emergências. O procedimento de evacuação é a principal ação de preservação de pessoas em caso de situações de emergência e de perigo eminente. O objetivo principal deve ser a proteção dos ocupantes e o direcionamento destes para ambientes que apresentem menores riscos.

 A atuação organizada de evacuação, incluindo a possibilidade do chamado “lock down”, ou seja, o isolamento das pessoas em locais seguros, como por exemplo no próprio apartamento caso haja estrutura adequada para isso e não haja risco eminente no local, é uma opção preferencial de medida de gestão do incidente em diversos tipos de ocorrências, como incêndios, atos hostis, terrorismo, acidentes naturais, etc, além de ser uma obrigação das empresas que estiverem prestando serviços de acomodação e hospedagem. 

Os gestores, proprietários e administradores dos hotéis e outras edificações tem a responsabilidade legal de aplicar, não só as legislações vigentes, sob pena de severas sanções civis e criminais e de impedimentos da cobertura de seguros contratados, mas também devem garantir todos os procedimentos necessários para preservar integralmente as pessoas que ali se apresentam, afinal, muitas vezes, o empreendimento pode estar de acordo com as previsões legais e técnicas e ainda apresentar vulnerabilidades desconhecidas, que atingirão as pessoas e bens e poderão trazer responsabilizações legais aos envolvidos.

Portanto, é importante lembrar que muitos procedimentos já existem por determinação legal, como os treinamentos de evacuação. O importante é que essas ações deixem de ser realizadas “pro forma”, mas sim pelo seu conteúdo. Dessa forma teremos ambientes cada vez mais seguros, e em conformidade com as crescentes exigências de ações eficientes de proteção dos negócios, das marcas e, especialmente, das pessoas.

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Otavio Novo é advogado, profissional de Gestão de Riscos e Crises, com 17 anos de atuação em empresas líderes nos setores de serviços, educação e hospitalidade. Durante 6 anos foi responsável pelo Departamento de Segurança e Riscos da AccorHotels para cerca de 300 propriedades e 15 mil colaboradores em nove países da América Latina.

Em junho, Otavio Novo participa como um dos professores da primeira edição do Curso HRCM - Hotel Risks and Crisis Management (Gestão de Riscos e Crises na Hotelaria).

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