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Notícia de Artigo

ARTIGO: A bolha de Dubai explodiu
Notícia publicada quarta-feira, 18 de março de 2009 - 17h05
Por Luiz Gonzaga Godoi Trigo*
 
Luiz Gonzaga Godoi Trigo
(foto: divulgação)
 
O cenário é artificial e feroz: dunas tórridas de areias cuja temperatura pode chegar a 50 graus centígrados no verão; pouquíssima água potável; aridez desértica que exige investimentos elevados para uma sustentabilidade que nunca será alcançada com projetos de massa. Assim são os Emirados Árabes Unidos. Esse cenário da península arábica esconde no subsolo reservas consideráveis de gás e petróleo que, nos últimos anos, atingiram elevados níveis de valorização entre as commodities mundiais. No contexto mundial com dinheiro sobrando e investimentos reluzindo pelo planeta, aliado à visão empreendedora e competente da família real local, a pequena vila de pescadores e coletores de pérolas transformou-se em um centro mundial de entretenimento, turismo, finanças e telecomunicações. Tudo isso apoiado em investimentos bilionários em hotéis, resorts, edifícios comerciais e condomínios residenciais horizontais e verticais. Milhares de imóveis surgiram no deserto, inclusive o título da mais alta estrutura do mundo voltou ao Oriente Médio, depois de séculos. A pirâmide de Queóps, perto do Cairo, no Egito, era a mais alta edificação humana e foi suplantada seguidamente por edifícios na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia. Hoje o local volta a ter o mais alto edifício do mundo, o Burj Dubai, com 808 metros de altura. A torre está inacabada porque a obra atrasou. A bolha imobiliária de Dubai explodiu.
 
Estive em Dubai em 2004, depois de um congresso na Jordânia, e fiquei encantado com o que vi. Encantado e preocupado com a rapidez do crescimento que se estendeu posteriormente para outros emirados, ao Qatar e até à Arábia Saudita. É tudo muito veloz e artificial, apesar de os Emirados investirem em atividades produtivas como telecomunicações, entretenimento e turismo.
 
Copiando e adaptando projetos de Cingapura e criando imóveis arrojados capitaneados pela Nakheel, empresa de desenvolvimento estatal, Dubai, um dos sete Emirados Árabes Unidos, tornou-se um polo turístico de luxo. Nos últimos anos a região cresceu a taxas de 8% anualmente, até 2008. Em 2009 o incremento será de 2,5%, se tudo correr muito bem.
 
A queda das tarifas do petróleo e a crise financeira global comprometeram Dubai. Os preços dos imóveis caíram entre 40 e 50% (o pico foi atingido entre junho e setembro de 2008); em março cerca de 20 mil trabalhadores indianos sairão de Dubai; 60% dos projetos imobiliários estão atrasados ou foram cancelados, em um valor estimado de US$ 75 bilhões; um relatório do banco HSBC listou 59 projetos altamente comprometidos ou já cancelados; o parque temático Falcon City of Wonders, que teria réplicas da torre de Pisa, da torre Eiffel, etc, foi igualmente engavetado; a Nakheel parou seis dos seus grandes projetos, incluindo o Nakheel Harbour and Tower, que seria o prédio mais alto do mundo, com mais de 1 Km de altura, a Trump Tower e Palm Deira, o maior dos três arquipélagos (Palm Jumeirah, Palm Jebel Ali e Palm Deira), marca do emirado. Sem contar o Burj Dubai, com as obras atrasadas. No seu site (www.burjdubai.com) não há previsão de entrega e a última atualização das fotos foi no início de 2008. O que fazer com as 30 mil gruas (25% do total no mundo) estacionadas no deserto? E com as casas, vilas, apartamentos, lojas, escritórios, hotéis e outras maravilhas ocidentais aportadas no local? Nada. A não ser esperar o fim da crise e a provável recuperação do interesse pela região.
 
As más línguas dizem que a Emirates Airlines ainda está operando lotada devido aos desempregados endividados que deixam o país por causa da crise para não serem presos, já que dívida em Dubai é crime punido rigorosamente. Há alguns milhares (1 mil, 2 mil?) de carros abandonados no aeroporto por gente que perdeu o emprego, devia muito dinheiro e se mandou com o que coube nas malas.
 
É o fim do sonho no deserto? Não necessariamente. Após o final da crise atual Dubai tem as melhores condições da região para retomar o desenvolvimento por não depender apenas de gás e petróleo. Mas e região não é uma unanimidade. Outros centros globais de entretenimento, como Las Vegas, Hong Kong, Cingapura e Orlando, também passarão por dificuldades, mas sua localização geoclimática lhes favorece. Algumas pessoas dizem que se fossem comprar uma vila ou uma casa descolada de veraneio, certamente escolheriam a Côte D'Azur, a costa almafitana, a costa brava espanhola ou a Bahia, mas não Dubai, um lugar rotulado por um amigo executivo, não muito bem humorado, de "frigideira poeirenta". Enfim, aqueles que têm dinheiro disponível, querem investir num lugar diferente e gostam do clima desértico e de sua hipermodernidade, podem aproveitar a recém-aberta temporada de descontos na região, que ninguém sabe até quando durará.

Para saber mais:
 
É só digitar "Dubai bubble burst 2009", no Google, para acessar várias matérias sobre a explosão da bolha em Dubai. E para assistir filmes sobre a crise digite "Dubai bubble" no You Tube.
 
Abaixo estão alguns links para as principais matérias sobre o assunto.
 
A propósito, a xeique de Dubai proibiu as notícias sobre a crise na mídia local sob pena de multas elevadas para quem divulgar fatos sobre os atrasos, paralisações ou cancelamentos das obras. E a Emirates Airlines já colocou em prática algumas medidas administrativas contingenciais para minimizar os efeitos da crise sobre a região.

* Luiz Gonzaga Godoi Trigo é escritor, pesquisador e professor associado à Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.

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