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Notícia de Artigo

ARTIGO: É tempo de crise, mas lenços continuam a ser vendidos
Notícia publicada quinta-feira, 29 de janeiro de 2009 - 12h23
Por Gilberto Simioni*
 
Gilberto Simioni
(foto: arquivo pessoal)
 
Na qualidade de consultor, palestrante, ministrante de treinamento in company, tenho entrado em contato com muitos proprietários, diretores, gerentes e administradores de hotéis. Os empreendimentos de rede têm seus próprios gerentes de treinamento, seus programas. Os pequenos, que precisam mais do que nunca de ajuda, alegam que não podem no momento, pois o mundo, o Brasil, a hotelaria estão em crise e não podem gastar. Treinamento, consultoria, gerenciamento profissional não são gastos. É investimento.
 
Os números da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), convention bureaux e consultorias especializadas dizem exatamente o contrário. As taxas de ocupação e diária média estão excelentes. Minha experiência de anos, locais, modelos e tipos de empresa também dizem o mesmo.
 
Quando as coisas correm bem, as empresa reúnem seus colaboradores em hotéis para motivá-los, recompensá-los do suor gasto. E os fazem viajar em busca do cliente.
 
Quando as coisas apertam, as empresas colocam seus profissionais em hotéis para discutir estratégias e driblar a crise. Fazem-nos viajar mais e utilizar mais os meios de hospedagem, tirar o traseiro da cadeira e ficar o dia todo de frente para o cliente. Respirar o ar que ele respira. Se antes chegavam ao hotel na segunda-feira à tarde e saíam na quinta à noite, passam a chegar no domingo e fazer check out na sexta à tarde ou no sábado pelo almoço.
 
Quando nos anos 1970 Percival Ghion, consultor de hotelaria há 35 anos, anglo-canadense, veio ao Jequitimar Guarujá, num programa de aposentados da Onu, explicou-nos, mostrando um copo com três quartos com água, que aquele era o dinheiro do Brasil. Virando um pouco para os lados, mostrou que ora o dinheiro vai para lá, ora para cá. Virando copo, explicou que ninguém é louco de queimar dinheiro (jogar a água fora), e que pessoas inteligentes vão atrás do dinheiro em qualquer ocasião. Com ou sem crise. Que não há mundo, país, estado ou empresa em crise. Há, sim, homens e pessoas em crise.
 
Diz o Dr. Lair Ribeiro que conhece dois tipos de pessoas. Os que choram e os que vendem lenços.
 
Nos anos 70, o Jequitimar num mês de junho ficou vazio. As reservas de pessoas físicas e empresas de julho e agosto foram todas canceladas. A única exceção foi a Ciba-Geigy. As pessoas da Grande São Paulo, quando percebiam a placa do carro de Guarujá ou viam o nome da cidade no cartão, não nos recebiam, pois uma cidade do interior, concorrente, havia espalhado um boato que o Guarujá tinha uma epidemia de encefalite. O pessoal da Ciba-Geigy explicou que a Holanda tem encefalite endêmica e ninguém morre. Pessoas bem alimentadas e com prevenção de saúde não morrem de encefalite. E que apenas um microscópio eletrônico nos Estados Unidos seria capaz de detectar a doença.
 
Jorge da Silva Prado, proprietário, chamou-me, na qualidade de gerente administrativo-financeiro e pediu-me que desse férias a metade dos funcionários com férias vencidas. Mês seguinte, mais metade. No terceiro mês, férias proporcionais. E que não dispensasse ninguém além dos três que estavam na marca do pênalti. Que lhes pagasse tudo e fossem embora, pois poderiam contaminar o resto. "O senhor não vai dispensar ninguém? Por quê?", indaguei.
 
"Toda crise passa. Depois, quando as coisas voltarem ao normal, precisaremos admitir. Os bons e treinados já estarão empregados e não voltarão. E colaboradores não são achados nas prateleiras de supermercados. Levam pelo menos um ano para serem treinados. Se forem embora, como arquivo vivo levarão todas as informações sobre a clientela, o funcionamento. Eles estão na linha de frente. Nós não", me contestou.
 
Tinha razão. Há cinco anos o turn-over beirava o zero. A média de tempo na empresa era superior a dez anos. A taxa de ocupação anual girava todo ano nos 73%, e a diária média estava acima de US$ 100.
 
O pessoal administrativo e chefias foram ajudar o pessoal de vendas fora da Grande São Paulo, onde a noticia não era tão alarmante, a fazer televendas ou semelhante, e o pessoal operacional aproveitou para colocar o hotel brilhando. Todos por opção pessoal, sem nenhuma obrigatoriedade.
 
Chefe de seção virou pintor. Pessoal de restaurante foi ajudar pintar guias, sarjetas e mesas de concreto ao ar livre. Foi realizada limpeza pesada em todos os apartamentos e áreas sociais. Ninguém ficou parado. O futebol das 16 horas passou de apenas na quarta para segunda e sexta-feira também.
 
Como a porcentagem de hóspedes estrangeiros era muito alta, sempre havia alguém no hotel. Grupos de fora, artistas da Record, Tupi, Excelsior, Paulista (Globo), que se apresentavam em São Paulo e se hospedavam em Guarujá. Earl Grant, pianista e organista, era um deles.
 
De fato, na primeira quinzena de agosto a Ciba-Geigy fez sua convenção de uma semana, e desta data em dianta o movimento subiu assustadoramente, mais do que o normal, pois havia uma demanda reprimida por parte das empresas e o cidadão comum se deu conta de que fora vítima de uma farsa. As vendas e ocupação, então, despencaram na cidade que havia gerado o boato.
 
Nos anos 90, no Deville Maringá, nova crise. Sempre as há. Geralmente provocadas por governantes omissos ou investidores que levam vantagem com a desgraça alheia.
 
Dr. Jayme Canet Neto, diretor-presidente, convocou todos os gerentes dos vários hotéis e da central para uma reunião de emergência na sexta-feira à tarde, em Curitiba.
 
Após um bom whisky Jameson, levou-nos para jantar num restaurante saboroso e farto e convocou a todos para uma reunião dia seguinte, às 9h, no escritório central.
 
Foram conversadas amenidades até certo momento. Cada um explicou a situação de sua unidade. Antes do meio-dia, Dr. Jayme disse a todos que remédio para crise é trabalho. Que após o drink cada um fosse para seu hotel, almoçasse e voltasse para sua casa, para sua unidade, que arregaçassem as mangas, pois não iríamos perder tempo com reuniões, desculpas, lamentações, visto que todos eram profissionais dos melhores no mercado, tinham seu budget, eram cercados de pessoas competentes, contavam com apoio da diretoria e saberiam muito bem o que fazer.
 
Um colega disse que teria certa dificuldade e talvez não conseguisse. "Então nos avise, para que possamos colocar alguém que consiga em seu lugar", retrucou o chefe. Não houve quem não conseguiu. Nem quem deixou de vender lenços.
 
*Gilberto Simioni é administrador e consultor hoteleiro
 
Contato
11 9616-6088
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